Algum tempo atrás encontrei a empregada perfeita.
Não é inteligente, mas é muito atenta.
Não é atraente nem jovem, e isso é muito importante pois ela é a primeira pessoa que vejo pela manhã e seria desagradável se estivesse bem vestida, com um largo sorriso malicioso no rosto e olhos brilhantes. Na verdade, ela está sempre com olhos caídos, como se tivesse sono.
Não se preocupa demais comigo, pois pra isso já basta minha mãe (meus problemas edipianos estão muito bem resolvidos, mas os da minha mãe ainda não e isso basta para suprir boa parte das minhas carências).
Porém, a cada duas semanas temos sempre a mesma discussão:
- O senhor não quer mesmo que tire o pó da casa?
- Não, deixe o pó onde está.
- Mas...
- Deixe a louça limpa, a sala e o meu quarto em ordem. Dê uma limpada lá na frente e pode deixar o resto como está... como sempre...
- Tem certeza?
- Tenho sim. Tô saindo. Até quinta.
- Até. Bom dia pro senhor.
Ela não entende, e eu nem espero que entenda, que essa camada leve de poeira é bem-vinda em casa. Assim eu sei o que tenho ou não feito nos últimos tempos e, se começar a incomodar, assopro-a para longe.
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A música chama-se Solidão, é do Tom Zé e essa versão é do álbum Estudando o Samba.




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